Um dos tópicos mais interessantes tratados pelo autor é a questão do sistema carcerário. Indiscutivelmente, a cadeia tem como função primordial a reeducação do individuo que infringiu determinada lei. Percebemos que isso, de fato, não ocorre: no caso do Brasil, por exemplo, o preso passa a ser tratado sem qualquer dignidade, tornando-se mais uma peça num sistema onde os excluídos são as minorias prioritariamente pobres. As relações de poder se entrelaçam devido as suas raízes, pois a autoridade/poder só existe devido a uma aparente desigualdade entre os homens – esta pode ser gerada principalmente pela economia capitalista, ou pela transferência de poder de um soberano para o outro (no caso da nobreza). Poder e punição são elementos diretamente correlacionados, uma vez que somente o detentor do poder é capaz de punir alguém que julga inferior ou desprovido de forças: indubitavelmente, qualquer forma de poder é repressora e autoritária.
Na foto, Michel Foucault (1926-1984)
O poder sobre a vida se desenvolve a partir do século XVII e se manifesta principalmente em dois pontos: o primeiro, chamado pelo autor de “bio-poder” é o corpo máquina, que disciplinou o ser humano a ser eficiente ao sistema econômico. O segundo, "bio-política” é o da população corpo-espécie, que se constituem de métodos e intervenções reguladoras da vida: a duração da vida, nascimento, morte, perpetuação. Ambas as faces objetivam o desempenho do corpo, e dele extraem tempo e trabalho causando seu esgotamento. O que ocorre é um seqüestro da energia do corpo humano por inteiro. O indivíduo não acha espaço para raciocinar, refletir, se manifestar contra o massacre. Este novo poder significa que a vida humana passa a ser uma questão de interesse público. O poder já não tem a função de matar, mas de investir na vida tornando-a útil para benefícios do Estado e sua articulação constituirá a grande tecnologia do poder no século XIX, elemento indispensável ao desenvolvimento do capitalismo que só pode ocorrer a partir do ajustamento dos fenômenos da população aos processos econômicos.
Em relação ao estado, existe o poder de “deixar viver” ou “deixar morrer”. O poder do Estado é o de apreensão das coisas: do tempo, dos corpos... Em suma, da vida que é suprimida pelo mesmo. Retomando ao sistema punitivo, pode-se tomar também como exemplo de poder atual a pena de morte. Antigamente, a pena era aplicada a quem afrontava o soberano. Hoje, a própria fez-se de difícil aplicação devido a lógica do poder, causando forte contradição: como seria possível uma instituição tal como o Estado, que tem o papel de fornecer todas as condições necessárias a vida, organizando-a e dando funcionalidade a ela, e concomitantemente, ter o aval necessário para aniquilá-la? “Pode-se dizer que o velho direito de causar a morte ou deixar viver foi substituído por um poder de causar a vida ou devolver a morte.” (FOUCAULT, M. “Direito de morte e poder sobre a vida”). Atualmente, é sobre a vida que se exerce o poder, a morte é o limite, apenas um escape, uma privação da existência.
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ResponderExcluirEu gostei muito do texto, ele englobou perfeitamente o conceito e o espírito do que é o poder para o Foucault.
ResponderExcluirO primeiro parágrafo capta o maior problema do conceito apresentado por Foucault - "...os sistemas de repressão capazes de esclarecer as contradições existentes nas propostas do estado para punição e reeducação dos cidadãos que vivem a margem do sistema."
Isso já logo nos coloca de frente a um grande impasse existente desde o começo do Estado e de seu poder exercido sobre o povo: a punição do individuo não vem a exercer seu devido papel, pelo contrário, ela vem a ser uma forma desigual de demonstração de poder dos soberanos sobre a classe operária.
O texto deixa evidente a falta de consideração e respeito com que o governo trata seu povo, onde somente a classe majoritária é beneficiada.
No intuito de "disciplinar" seu povo é que foi criado o biopoder junto com o poder disciplinar, porém o que lhes é ensinado e mostrado, é somente aquilo que o governo permite. Por esse motivo , o indivíduo foi tido como alguém que deve trabalhar e garantir seu bem material para que seja considerado um cidadão (o que não é necessariamente um conceito certo).
Em suma, a última frase conclui o texto, dizendo, "Atualmente, é sobre a vida que se exerce o poder, a morte é o limite, apenas um escape, uma privação da existência." Nela ve-se claramente que o medo da morte é substituido pelo medo em não se conseguir bens materiais, uma vez que a opressão deixou de ser através da violência física e passou a ser através da homogenização educacional, o que Paulo Freire denominou “domesticação”.
Nara Cavalcante
RA00092259
Queridchenhas do Animal Social,
ResponderExcluirMuito bom o texto de vocês, acredito que vocês tenham captado as principais idéias do Foucault com objetividade e clareza.
Mas (sempre tem que ter um "MAS", pessoal fdp que fica pondo defeito no texto dos outros), vocês deveriam ter trabalhado a questão da "VIGILÂNCIA CONSTANTE", e mais, ter trazido ela para a atualidade e mostrar como aplicamos tal conceito no nosso dia-a-dia. Durante as aulas o professor Rafael exemplificou este conceito falando do sistema carcerário, e do medo que as pessoas têm só de imaginar que haja alguém vigiando tudo e todos através de uma torre central. Esse temor faz com que as pessoas pensem duas vezes antes de tomar uma atitude errada.
Leonardo Romano
RA00097447