quinta-feira, 23 de junho de 2011

E o sol da liberdade em raios fúlgidos

Parece tortuoso contestar os moldes que ditam a estrutura da sociedade, onde muitos homens obedecem a um único homem. Para Etienne de La Boétie, filósofo francês (1530-1563), este foi o assunto que lhe tirou noites e noites de sono. Pensou em respostas; tentou encontrar o porquê. Covardia? Comodismo? Medo? Segundo o Discurso da Servidão Voluntária, um relato apaixonado em prol da liberdade escrito por ele, é o próprio povo que se escraviza, mesmo podendo escolher entre ser livre e ser escravo. Medo parece não ser a resposta correta, pois cem homens não podem ter medo de um homem; mil homens não podem ter medo de um homem.

"Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?" - La Boétie (foto)

La Boétie tenta desvendar as razões da servidão: por que todos obedecem e servem a um único tirano? O filósofo vai a fundo na condição humana. Acredita que os povos simplesmente se deixam oprimir e que no dia em que não mais servirem, não mais serão esmagados. Quais seriam, então, as possíveis respostas para o fato de o homem permitir ser dominado e oprimido?

Segundo John Locke, filósofo inglês (1632-1704), o governo torna-se tirano apenas quando o poder é aplicado para empobrecer, perseguir ou subjugar o povo à ordens arbitrárias e irregulares.

No estado civil é possível ter amparo da lei para que o homem proteja sua vida e seus bens. Funciona como uma troca: liberdade X segurança. De que adianta ser livre se, sem regras, não há ordem? Daí o conceito de servidão, que La Boétie considera um vício, um "triste vício humano". O contrato social (formação de ordem e Estado) atua como uma resposta a todas as fraquezas humanas. Perde-se a liberdade, mas protege-se a vida. Para La Boétie, libertário ferrenho, esta escolha trata-se de uma desgraça.

O homem tem medo de ser livre? De acordo com Locke "onde não há lei, não há liberdade." Seria essa uma escolha racional? La Boétie contesta modos de governar e suas ações: "não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da coisa pública." Portanto, chegamos a um clássico embate: o homem deve abrir mão de sua natureza em prol das estruturas sociais?

La Boétie teoriza: se hoje um novo povo nascesse, sem nenhuma referência a todas as coisas do passado, esse povo preferiria seguir a razão ou servir a um único homem? A resposta parece fácil, porém, junto a ela uma nova pergunta: se realmente parece óbvio sermos livres, por que não o somos?

2 comentários:

  1. Laura Nogueira Pereira - RA00096759
    Gostei muito do texto, claro e conciso.
    Creio que a questão da liberdade sempre foi e sempre será foco de diversas discussões, ainda mais questões envolvendo o trabalho.
    Acredito que o commodismo influencie o homem a tal servidão, ele em busca da ordem torna-se voluntário em uma sociedade. Creio que o medo da confusão e do novo não o deixe querer,nem providenciar mudanças.
    Ele busca uma troca realmente, dispõe trabalho em troca de leis que garantam sua sobrevivência.
    Concordo com a questão sobre as referências do passado, mas acredito que se em algum momento o homem decidisse a seguir a razão ao invés de servir a um único homem, a confusão se formaria, e a busca do ordem falaria mais "alto" que o sentimendo de liberdade.

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  2. O sol dessa pátria vai brilhar, só não sei em que instante. Parabéns pleo texto, claro e crítico. A questão da liberdade sempre nos rondará e junto com ela a da segurança, a da saúde, da educação...DA POLÍTICA. O contrato social deveria nos garantir a liberdade de ter segurança e de nos assegurar que somos livres. Os anarquistas de plantão que me desculpem, mas não acredito que o ser humano consiga viver sem regras ou sem algo que as cobre. O anceio da liberdade vem junto com o da morte, se mesclam e estagnam o ser humano. Não somos livres por inteiro, e procuro saber até hoje o que realmente é ser livre. Enquanto isso, com braços fortes, vamos atrás do penhor dessa igualdade. Parabéns

    JOAQUIM GOUVEA
    RA00055260

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